Saquem os lencinhos: “O Homem de Lata” veio para nos emocionar! » Soul Geek

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[…] Ele pegou a câmera e demorou o tempo que achou necessário, pois queria fazer direito. Eles pareciam tão felizes, pareciam uma família, e ele queria mostrar isso na foto. Eles eram a única coisa importante naquela tarde quente e ensolarada de junho de 1991. […]” (pg.155)

Quando li a sinopse do livro, tive uma impressão da história. Não é que esteja errada, mas o que realmente acontece é um pouco diferente do que imaginei, e muito mais interessante. O enredo gira em torno de superação, amadurecimento, aceitação e, em minha concepção, luto.

Tudo começa com Ellis, com seus mais de quarenta anos, apenas existindo em uma vida vazia e sem sentido, obviamente dentro de um processo depressivo de luto. É quando descobrimos que sua amada esposa e melhor amigo morreram no mesmo dia, há cinco anos, e Ellis não consegue superar. Ele está anestesiado pela dor. Então um acontecimento de quase morte o faz respirar de verdade pela primeira vez, fazendo-o “ficar” lúcido (assim ele descreve), passando a enfrentar a realidade e a voltar a vida. Essa é a primeira parte do livro, pois em determinado momento, ele encontra o diário de Michael, seu falecido melhor amigo, e ao lê-lo, inicia a segunda metade da história.

Bem, como eu disse, o livro vem em duas partes: Ellis e Michael. Eles se conheceram no início dos anos 60, e se tornaram amigos inseparáveis, e também eram algo mais, algo nunca nomeado. Com o tempo, esse “lance” entre eles morre (motivos diversos que não contarei, óbvio), e Ellis se casa com Annie, uma mulher maravilhosa, e os três formam um laço inseparável de amizade. Mas, em algum momento, Michael não aguenta mais ver o amor da sua vida com outra pessoa, por melhor que ela seja, e desaparece da vida deles por anos. E é isso o que descobrimos na segunda metade do livro: o que Mike fez enquanto estava longe.

A história, no geral, é muito simples e bem contada. Logo no início você consegue perceber os sintomas de luto de Ellis, o modo como ele vai desenlaçando seu passado, seus arrependimentos, sua história. Ao mesmo tempo em que vive o presente, fazendo novas escolhas, optando por dar continuidade a vida, e percebendo que ainda tem tempo para voltar a ser feliz, aceitando que seu passado e que as pessoas que ele ama não vão voltar.

Depois temos Michael, que precisa cuidar do seu coração partido, e precisa amadurecer muitas questões. E aqui a autora também introduz assuntos delicados, sobre como ele ficou órfão, sua homossexualidade – que ele aceita de maneira natural, a morte de pessoas queridas e o medo da aids, muito presente na sua vida. Apesar de tudo isso, eu achei pecaminoso ela citar todas essas coisas e não aprofundar, mas eu entendo. O foco dela era a jornada dele, e dentre tantas coisas, a narrativa poderia se perder.

Annie não tem um arco próprio, pois a história se foca somente em Ellis e Michael, mas ela é uma peça chave para entender o que havia entre eles. Sem falar que Annie é uma personagem maravilhosa, muito bem introduzida. Ela é animada, compreensiva e com uma sensibilidade naturalmente desenvolvida. Eles formam um trio tão incrível que dá vontade de ter participado da vida deles.

Achei interessante também como a autora introduziu a arte, através da mãe de Ellis, uma mulher que vivia com um marido que a traía e não a tratava bem, mas mesmo assim, não deixava a centelha de vida morrer, sempre com uma palavra gentil, um sorriso e algo a ensinar aos rapazes. Ela mostra a eles seu quadro favorito, conversa com Ellis e Michael sobre arte, e isso no futuro tem muito impacto na vida deles.

Tem alguns assuntos no livro que eu achei mal explorados, e não teria feito mal a autora trabalhar mais neles. Um exemplo, ela dá uma pincelada nas relações familiares dos dois personagens principais, que são conturbadas, mas é só isso mesmo, um vislumbre, e poderia ter sido mais. Mesmo assim, é uma história muito boa, e simplicidade é a palavra-chave. E é um livro bem pequeno, então você pode terminar de ler rapidamente, principalmente porque a história flui depois que você entende a proposta.

Gostaria somente de fazer uma rápida observação. Embora Michael seja obviamente gay, vou lembrar a todos que não existem só duas sexualidades no mundo, e apesar de Ellis correr o risco de ser lido como gay enrustido, ele obviamente amou Annie, assim como amou Michael (nada disso é spoiler, está na sinopse), então, pessoas, só uma palavra para vocês: bissexual. Beijos no core.

A capa está maravilhosa, e eu amei o tom de amarelo, além das referências à própria história. A única reclamação seria a falta de uma separação de capítulos, o que deixa um pouco confuso as referências de tempo, pois a história transita entre passado e o presente, então tem que ter uma atenção redobrada. Mas não é culpa de ninguém, é claro, e é uma coisa pessoal minha, pode ser que ninguém mais tenha sentido isso.

O livro tem um temática LGBT muito singela, mas, para mim, o foco é a superação e amadurecimento. É uma leitura gostosa, e vale muitíssimo a pena acrescentá-la na sua lista de livros de 2018. De nada.

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