Especial 200 anos: Frankenstein ou o Prometeu Moderno » Soul Geek

Especial 200 anos: Frankenstein ou o Prometeu Moderno » Soul Geek

O Monte Tambora, localizado na Indonésia, é o vulcão detentor do recorde de maior erupção já registrada na Terra. O vulcão se preparou por 3 anos e, no ano de 1815, expeliu a incrível quantidade de 180.000.000.000 m³ de matéria e chegou ao nível 7 do índice que mede a intensidade de erupção vulcânica (cujo maior nível é 8).

A explosão foi ouvida na ilha de Sumatra, que dista 2000km do Monte Tambora e a queda das cinzas vulcânicas, que chegaram a mais de 33km de altura, escureceu uma região com raio de aproximadamente 500km durante três dias e matou mais de 60.000 pessoas. Mas essas não foram as únicas consequências da erupção.

A erupção provocou anomalias climáticas em níveis globais, principalmente no hemisfério norte, fazendo com que o ano de 1816 fosse palco da pior carestia do século XIX, ao que ficou conhecido como “O Ano sem Verão”. Mas essas não foram as únicas consequências.

 

Um belo casal, ainda noivos, foi passar o verão à beira do Lago Léman, no ano de 1816, juntamente com mais dois amigos e colegas de profissão. Os quatro, impedidos de aproveitar o clima no Ano sem Verão, ficavam confinados no castelo do anfitrião e, como passatempo, contavam histórias de terror uns para os outros, normalmente traduzidas do alemão para o francês.

Até que um belo dia o anfitrião teve a brilhante ideia (a qual devemos agradecer eternamente) de elevar o nível da brincadeira: em vez de lermos histórias já conhecidas, vamos criar umas nossas.

Alguns dias depois vieram os quatro com suas histórias ou esboços para serem apresentados: nosso anfitrião veio com um conto que seria utilizado posteriormente na poesia Mazzepa – já devem ter percebido  que o nome do nosso anfitrião era George Gordon Byron, ou Lord Byron, para os íntimos; Um dos convidados, chamado John Polidori, veio com um conto chamado Vampyre, que algumas décadas depois inspirou o mestre Abraham Stoker a criar um dos personagens mais famosos do mundo, conhecido como Drácula; E nossa jovem, provavelmente muito frustrada com as condições climáticas que estragaram suas férias de verão, veio com um esboço do que seria Frankenstein, ou o Prometeu Moderno.

Apesar de ter sido concebido em 1816, Mary Shelley levou mais um ano e quase meio para aprimorar sua história, e em 1º de janeiro de 1818, aos 20 aninhos de idade, apresentar sua obra ao mundo.

 

Frankenstein…

Shelley concebeu inicialmente a história com um enredo simples: um jovem estudante das ciências naturais cria um corpo a partir de partes de outros corpos e consegue dar vida a esse ser. Esse plot inicial foi desenvolvido e ganhou novas camadas, onde Mary brinca com a relação criador e criatura, certo e errado, vida e morte.

Nosso estudante, o ainda jovem Victor Frankenstein, é filho de um aristocrata suíço e é mostrado como incrivelmente talentoso e autodidata. Somos apresentados também à sua irmã de criação, Elizabeth, e ao seu amigo de infância, Henry Clerval.

Frankenstein, em sua adolescência, acaba se interessando por ciências naturais, estudando livros de mestres alquimistas até os seus 17 anos, quando é enviado por seu pai para a Universidade de Ingolstadt, na Alemanha.

Na universidade, Victor estuda febrilmente sobre os mistérios da criação e, obviamente, consegue descobrir o segredo da vida. Frankenstein então dedica-se exclusivamente a criar um ser humano perfeito, com as melhores partes que pôde encontrar (tipo o personagem ideal nos RPG’s da vida). Quando a criatura finalmente acorda, Frankenstein, aterrorizado, foge e, quando volta para sua casa, está finalmente sozinho. Mas, até quando?

… ou o Prometeu Moderno

Prometeu e Epimeteu foram titãs que, segundo a mitologia grega, foram incumbidos de dar forma aos seres vivos. Epimeteu ficou com o trabalho braçal enquanto Prometeu com a supervisão. Epimeteu criou aos animais, dando a eles características diferentes. A alguns, garras, a outros, asas. Quando chegou a vez dos homens, Epimeteu estava sem recursos e pediu ajuda ao seu irmão, Prometeu, que deu ao homem o fogo: a chama do Olimpo, que assegurou a superioridade do homem. Zeus furioso o castigou, pois o segredo do fogo era apenas para os deuses.

Shelley claramente fez a relação entre o fogo, segredo dos deuses pelo qual Prometeu foi castigado, e a vida, segredo dos deuses pelo qual Victor foi castigado.

É claro que o livro vai muito além disso. Shelley também trata em sua Magnum Opus a relação da Criatura com outros humanos, onde ela critica o julgamento pela aparência que estamos fadados a fazer. Essa é uma das críticas sociais mais fortes do livro (que é de 200 anos atrás e continua Moderno, como seu título ainda sugere).

Mas o ápice filosófico, em minha humilde opinião, é o fato de que a Criatura cometeu vários crimes em sua trajetória em busca de seu criador. Contudo, ela não iniciou a vida matando. Ela sofreu. Sofreu muito. Teve que aprender da pior forma como a natureza é, como os humanos são. Até chegar ao ponto de ardentemente desejar a morte de seu criador. A Criatura não era má, foi corrompida. E no final, para quem você torce: para o Criador irresponsável ou para a Criatura negligenciada?

Narrativa

Toda a trama é narrada pelo Capitão Robert Walton através de correspondências enviadas para sua irmã enquanto ele está em uma expedição náutica para encontrar uma passagem para o Polo Norte. Os tripulantes do navio encontram um homem quase morto à deriva. Cuidam de suas feridas e tratam de esquentá-lo. É então que Walton pergunta quem o estranho é e o que ele faz em um local tão desolado.

O Estranho começa a contar sua história, que é narrada pelo capitão Walton através da carta para sua irmã (e vocês achando que o enredo de “A Origem” era original…). O modo de narrativa também serve para livrar Shelley de inventar métodos alquímicos para gerar vida. O Estranho simplesmente opta por não revelar ao seu ouvinte como a criatura ganhou vida, para que o terror de Frankenstein não se repita com outrem e pronto. Isso Victor levará para o túmulo.

Frank na mídia

Mal sabia Mary Shelley que sua amada criatura seria um dos seres mais conhecidos da história. Frankenstein foi adaptado para praticamente todos os tipos de mídia.  Passou por peças de teatro, rádio, televisão, cinema e até quadrinhos, sendo até mesmo citado em inúmeras obras.

Falando apenas das adaptações cinematográficas, começamos em 1910, produzido pela Edison Studios (sim, do cara que inventou a Lâmpada Elétrica). Posteriormente, a Universal começou a criar seu universo de monstros e, é claro, Frankenstein não poderia faltar. A obra da Universal foi lançada em 1931, trazendo o Mestre Boris Karloff como o Monstro.

Várias outras adaptações foram feitas. Aqui destaco mais um: Mary Shelley’s Frankenstein. Dirigido pelo Kenneth Branagh, que também interpretou Victor, e com a participação de Robert DeNiro, como a Criatura e Helena Bonham Carter como Elizabeth, que tem como premissa ser fiel ao filme (coisa que poucos filmes, pra não dizer nenhum outro, fez).

Conclusão

Nesses 200 anos, Frankenstein inspirou inúmeras pessoas e obras ao redor do mundo. Até mesmo Stephen King, o rei do terror da atualidade, considera-o um livro essencial, juntamente com Drácula de Bram Stoker e O Estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Stevenson.

Então, caso não tenha lido ainda, corre pra alguma livraria ou procura ele na internet, afinal, já está em domínio público, e se maravilhe com essa obra clássica e atemporal.

Post Original Aqui

Siga e curta nas redes sociais:

Deixe uma resposta