Anne x Anne: série vs livro » Soul Geek

Anne x Anne: série vs livro » Soul Geek

Em 1908 a escritora canadense Lucy Maud Montgomery, ou L. M. Montgomery, publicou o livro “Anne de Green Gables”, que conta a história da menina Anne, que, por engano, foi enviada à fazenda de Green Gables para ser adotada pelos irmãos Matthew e Marilla Cuthbert, que apesar de tudo, acabam se afeiçoando a menina e a criando. Essa primeira edição conta sobre a vida de Anne dos onze aos dezesseis anos, e a coleção conta com mais sete livros, onde podemos acompanha-la até a sua velhice. Essa obra clássica se tornou mundialmente famosa, e inspirou diversos espetáculos teatrais, filmes, séries televisivas e desenhos animados. Um exemplo disso é que ano passado (2017) foi lançada a série “Anne com E” na Netflix, e sinceramente? Faz não somente jus ao original, como aprofunda imensamente a história da menina Anne, tornando tudo mais interessante. Mas vamos aos poucos.

ANNE DE GREEN GABLES

É interessante que, antes de tudo, eu cite que, na época, o comum da literatura é que as histórias fossem sempre contadas do ponto de vista dos adultos. As crianças eram, como se diz até hoje, para serem vistas e não ouvidas. Ou, no caso, lidas. Mas Anne é um ser vivo próprio, não uma cópia em miniatura de um adulto. A menina é ser um vivaz, eloquente, com imaginação até demais, que sente e vive tudo muito intensamente, tendo sua própria visão de mundo. Ela é extremamente inteligente, absorvendo tudo de uma maneira sincera e crítica. É uma personagem pelo qual facilmente nos afeiçoamos. Ao contrário de Oliver Twist, de Charles Dickens, ou outros personagens infantis da época, Anne não é uma criança ideal, com modos que não correspondem aos arquétipos da educação esperados de uma menina daquela idade no fim do século XIX. E o ponto alto do livro é ir acompanhando as peripécias, a tagarelice, as trapalhadas da protagonista, e o modo como ela amadurece a partir dos próprios erros. Como ela mesma diz: “Eu nunca cometo o mesmo erro duas vezes.

Mas estou divagando.

A história começa apresentando bem os personagens, assim como o local onde Anne vai viver o resto de seus dias. As primeiras páginas são recheadas de maravilhas, com descrições deliciosas da Ilha Príncipe Eduardo. É interessante notar que a autora tem uma visão muito religiosa em relação a natureza, e talvez por isso haja descrições frequentes da paisagem, que se tornam uma parte importante na história, inclusive as vezes sendo comparadas com trechos tirados da bíblia.

Marilla e Matthew são rapidamente introduzidos na narrativa, e com a perícia de uma boa escritora, Montgomery nós dá uma boa ideia de que tipo de pessoas eles são, para que possamos observar, ao longo do resto do livro, as mudanças que há neles após a chegada da órfã. Em seguida somos apresentados à Anne, onde nos deparamos com o mesmo estranhamento sentido por Matthew, que incumbido de busca-la na estação, tem que ouvir a menina tagarelar por muito tempo até chegar em casa. Apesar da timidez e da falta de jeito com pessoas, o homem até que gosta daquilo e rapidamente se afeiçoa a menina. Anne tem pensamentos originais o tempo todo, e acaba tornando tudo muito divertido e leve de se ler. O livro é todo assim, bem gostoso de acompanhar.

Achei interessante o modo com a autora nos transmite as passagens do tempo: a partir, muitas vezes, de Anne e seu amadurecimento. Você começa com uma garotinha eufórica em um novo mundo de possibilidades, que mal se aguenta ao ver que não precisa mais sofrer e ser rejeitada. Ela é, em todos os detalhes, uma garota ambiciosa, e toda a sua imaginação era usada para suprir muito da sua ambição não satisfeita, já que, como uma garota na miséria e órfã, ela imaginava que jamais teria oportunidades de crescer na vida. A partir do momento em que tem essa oportunidade com os Cuthbert, ela a agarra com cada fiapo de vida que tem em seu corpinho e não desperdiça. A medida que a narrativa avança, observamos esses detalhes com mais frequência. E assim o tempo avança.

Agora, uma observação pessoal minha. Eu amo como esse livro é recheado de personagens femininas importantes. A amizade de Diana e Anne é uma das melhores coisas que eu já li, totalmente desprovida de inimizade feminina, inveja, ciúme ou coisas normalmente atribuídas às mulheres. Durante a segunda metade da vida da protagonista, somos introduzidos à uma professora, a srta. Stacy, que quebra padrões da época, pois a escola nunca havia recebido uma professora. Até então somente homens tinham sido incumbidos da arte de ensinar. E tem um plus de ela renovar o estilo de ensino, explorando o melhor dos seus alunos e alunas, ignorando o que era considerado normal e aceitável. Como consequência, as crianças tem um desempenho melhor, e ninguém reclama, mesmo achando ruim (risos). Além de outras personagens importantes também, como a própria Marilla, a Sra. Lynde, a Sra Allan etc etc, todas muito bem exploradas.

Anne é um livro que, apesar de ser considerado literatura infantil, é uma literatura madura e bonita, com uma personagem humana e cativante, que possui muitos dilemas e conflitos internos, que sente tudo e vive tudo de maneira intensa. Com certeza é uma história que eu indico para qualquer pessoa ler, e eu os desafio a não gostarem de Anne.

ANNE COM E

A série, por outro lado, fez diversas mudanças. Por exemplo, Anne começa com treze anos, se não me falha a memória, enquanto no livro sua primeira aparição se dá com onze. E a primeira temporada termina com ela basicamente na mesma idade, mas provavelmente perto de fazer quatorze anos (não deixa claro). Eles aprofundaram muitas relações e cenários que não foram exploradas no livro, já que a história acaba sendo um pouco rasa por ter que contar cinco anos da vida da menina e possuir apenas 471 páginas para esse feito. Outro fato interessante é que copiaram diálogos inteiros do livro e colocaram na série, sem mudar nenhuma vírgula.

Amei que exploraram as dificuldades que Anne teve na vida pregressa, o preconceito que sofreu por ser órfã, por ser de fora da cidade, por ser uma garota viva e cheia de imaginação, totalmente diferente das outras meninas. Eles exibem mais do que no livro o estranhamento dos adultos em relação as ideias de Anne sobre a vida, sobre o modo como ela encara o mundo. E principalmente, quem criou a série resolveu pegar ganchos mal explorados na história original e encaixar magistralmente para essa nova versão, criando uma narrativa cativante, bonita e envolvente. É muito bom ver como se utilizam de uma abordagem delicada para explorar assuntos vigentes da época que ainda são atuais, como bullying, casamento gay e feminismo.

Além disso, a série é linda. A fotografia, a paleta de cores utilizada, é tudo tão… nossa, enchem os olhos. A abertura é uma das mais bonitas que eu já vi, com certeza. Ela é inspirada nas obras do artista Brad Kungle e foi feita pelo mesmo grupo que fez a abertura de Stranger Things, a Imaginary Forces.

Uma das melhores coisas é que as atrizes e os atores, principalmente adolescentes, tem idade apropriada. Não tem uma menina de 25 anos interpretando a Anne de 14. A atriz Amybeth McNulty, que interpreta Anne, tem 16 anos agora.

O final da temporada é instigante, e possui um clímax com uma problemática inexistente no primeiro livro (como eu não li os últimos, não sei dizer se foi inspirado em outra parte da coleção), mas que me agradou por não se prender tanto ao original, mas ao mesmo tempo homenagear maravilhosamente, já que “Anne de Green Gables” já passou dos cem anos de existência, sendo uma senhora de idade bem avançada.

A série foi criada pela roteirista de “Breaking Bad”, Moira Walley-Beckett, e dirigida por Niki Caro (“Terra fria”, “A encantadora de baleias”), e já está com a segunda temporada confirmada. Supõe-se que saia ainda no começo desse ano, lá para maio.

SÉRIE X LIVRO

Existem, obviamente, diferenças gritantes entre o livro e a série, já que são mídias diferentes. E devo dizer que quem criou a sua versão televisiva provavelmente receberia a aprovação da autora: os personagens estão fiéis, e mesmo que mudem alguns fatos, e várias situações tenham sido alteradas, o miolo é o mesmo.

Na série também tem destaque para personagens que gostaríamos de conhecer melhor, como Gilbert Blythe, que, por causa do ódio irracional de Anne contra ele no livro, mal sabemos sobre o pobre coitado. Já na série, apesar de terem mudado quase completamente a sua história, somos apresentados ao mesmo rapaz e agora temos a oportunidade de acompanhar mais a sua trajetória.

Mas fiquei triste que a amizade de Diana e Anne acaba não tendo a mesma força que no livro, por conta do bullying que a protagonista sofre, levando a melhor amiga a ter que, supostamente, tentar convencer as outras garotas a entenderem Anne. A Diana do livro não teria deixado a amiga sofrer sozinha em momento algum, mas felizmente, essa diferença não afeta em nada a qualidade da amizade, que é bem explorada.

CONCLUSÃO

Se você já assistiu, vá atrás do livro. Estão relançando no Brasil, através da editora Pedra Azul, mas também ainda existe para se comprar a edição comemorativa de cem anos, lançada pela Martins Fontes. Eu ainda não tenho as continuações, então se alguma alma caridosa quiser me dar quando lançar, eu aceito. Para quem lê em inglês, na Amazon tem todas as edições disponíveis em e-book. E se você por acaso leu, assista a série. Não vai se decepcionar.

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